J.Cosmo_

 
registro: 14/11/2020
Sigo a existir, vencer é questão de estar sempre presente, não competimos com a vida, apenas a vivemos!
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Vice-Versa

Vice-Versa


Em um canto daquela sala, num hospital qualquer, jazia um cadáver!
Fora recolhido, naquela noite de chuva, em alguma rua imunda, antes dele limpa, pois agora esta se escoava em sangue e pedaços, pois o tal havia sido atropelado!

Um Zé da Silva!

Não, nem isto, não tinha documentos, impressões davam a impressão, impressionante, de nunca terem sido pela natureza impressas em seus dedos sujos e mal articulados!
Chegou quase morto no hospital, e não saiu quase vivo, morreu ali mesmo!

Num canto da sala foi amontoado sobre si mesmo, não havia outro espaço para o amontoar com outros, algo como;
De luxe!

Agora era hora de aguardar a papelada, uma folha, para sair para o enterro; uma vala qualquer, em algum lugar qualquer, apenas para a terra o comer, e ele voltar ao pó...

Um nome, precisavam de um nome, sim, não se enterra sem um nome, apenas para constar, constará também na papelada, um papel, ser fictício...
O legista sugeriu; "- enterrem logo o Afonso!"
O auxiliar gritou; "- gente, o doutor mandou se livrarem do Orlando!"
Os encarregados disseram; "- vamos por o Augusto ali no canto, já virão pegá-lo!"

Enquanto não vinham, o pessoal da limpeza falava, enquanto limpava; "- o Alfredo está aqui", "- o Peçanha está atrapalhando", "- vamos limpar perto do Otacílio!"

Durante a noite o vigia o viu e pensou; "- como cheira mal este Mané!"

Amanheceu, muito movimento, entra e sai, e viram ele ainda lá, grita geral;
- Este Tonho ainda aqui, tirem este Pedro daqui, chamem o rabecão para recolher o Vicente!

Meio dia chegou o pessoal para levar pra enterrar;

- Este é o Severino, cadê a papelada - dois papeis - deste Chico?
Levaram ele pro cemitério!
Vamos conferir;
- Cadáver de um João, papelada - três papeis - preenchida e um caixão de papelão reforçado, confere!
- Enterrem logo este Benedito!
Foi pra cova, ajeita aqui, ajeita ali;
"- vamos logo com este Joaquim, quero almoçar!"

Nisto, passava um padre, um padre e uma pequena comitiva de cleros e políticos, umas 15 pessoas, de longe viram aquela movimentação e chegaram perto!
Estranharam não haver parentes, ninguém num enterro, os coveiros não sabiam nada dizer, ou não quiseram, então resolveram;
- Vamos rezar pela alma do infeliz solitário!
- Qual o nome dele, o nome dele?
Tá na papelada, quatro papeis, anotado!
O padre pega, inicia a reza, procura pelo nome na papelada, cinco papeis, e acha;
- Oremos pela alma recém partida do nosso amigo; João Orlando Joaquim Manuel Severino Oswaldo Pedro Adriano Carlos Paulo Francisco Renato Jorge Juvenal Donizetti Fabio Frederico Augusto Nicanor...
E mais 323 nomes, disciplinadamente lidos pelo padre!

Todos estranharam; "como uma pessoa, com um nome destes, não tem ninguém no enterro?"
Um dos participantes da missa, um jovem político, pegou a papelada, seis folhas, pediu aos coveiros para levarem o corpo para sua Van, e de lá o levou para o grande necrotério da cidade, onde ainda ficou uma semana na geladeira antes de ser enterrado no mausoléu dos fundadores da cidade, com banda de música, missa campal, reza coletiva via TV Central, ao vivo, banquete, revoada de pombos e uma grande homenagem!

Daria nome ao pequeno aeroporto da cidade;
Aeroporto João Orlando Joaquim Manuel...
...e mais 3 centenas de nomes!
Mais conhecido, futuramente, como...

Aeroporto Zé da Silva!