dulcor

 
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É assim que é...

25/03/2020       

Para mim não existe quarentena porque trabalho na rede hospitalar.

Bom, pois sou agitado, proativo e hiperativo. Amo ficar em casa. Parece que já nasci para me prevenir contra a covid19. Em contrapartida, não sei como suportaria um tempo indeterminado sem trabalhar, até porque também existiria a questão de ficar sem receber salário e, até mesmo, ser dispensado e ficar desempregado. Logo, devo agradecer por estar trabalhando no período de quarentena.

Minha rotina mudou. Já não uso mais o ônibus para ir trabalhar, porque o que uso é intermunicipal. Restou o trem, o “Japeri”, este “folclórico” trem do estado, e nele sempre tem coisas para se falar e observar. Vamos às observações de quarentena

Ambulante

Olha, o processo de adentrar o trem é complicado. A triagem é “ferrenha”. E quando eu consigo entrar no trem, percebo os ambulantes oferecendo seus produtos. A pergunta que não quer calar é: “Como eles conseguem entrar nas estações e vagões?”. Eu não sei. Só sei que diante da necessidade de levar o pão pra casa, as pessoas “dão um jeito” de trabalhar, e isso é uma das coisas que me encanta nesse meu estado, a forma como essas pessoas se adaptam às situações. Mas cuidado, existe a vontade de trabalhar, mas junto dela o risco de ser contaminado ou contaminar outras pessoas.

O pregador

Esse sujeito já vi por duas vezes. Ele entra no vagão iniciando o discurso de que a escola de samba Mangueira desrespeitou Jesus nas retratações que fez dele no desfile da escola no sambódromo, insinuando que a “tormenta” causada pelo coronavírus é um castigo de Deus.

Na segunda vez eu não resisti e perguntei a ele se Deus era misericordioso ou um tirano, pois ficava subentendido que essa definição depende do interesse do interlocutor que faz a pregação.

No final perguntei a ele por que estamos sempre pedindo a Deus soluções para problemas que nós mesmos criamos. Nesse caso não faria sentido algum Deus ter nos feito racionais, visto que no fim sempre rogamos pela solução Dele.

Aliás, no fundo eu acho a racionalidade foi uma punição, ao invés de uma benção.

O sujeito estava com pressa a saiu do vagão sem esclarecer minhas dúvidas.

Dica

Olhando as pessoas, a tensão que a ameaça da doença causa nelas, o silencio dentro dos vagões, o olhar sem direção de cada um, o desolamento... só há uma sugestão: música.

Se todas as pessoas tivessem a real noção do bem que a música faz, já teriam adotado como terapia.

Sugiro algo confortante como um New Age ou mais reflexivo como um clássico.

Comportamento de periferia

Dá pena vê o povo batalhador, que precisa levar a comida à mesa, ficar de joelhos diante de uma pandemia que aleija a necessidade da maioria dos brasileiros, afetando principalmente o pobre.

É hora de termos “comportamentos de periferia”.

Quem mora na periferia sabe como é empregar a “comunidade” no cotidiano.

Na periferia tem sempre quem precise de um copo de açúcar, e principalmente não falta quem ceda. Vizinhos falam de si, saem no pau, mas na hora que a “parada fica estreita”, é um com o outro que eles contam.

É hora de um ajudar o outro.

Gosto de pensar que a gente tem de tirar proveito de tudo, inclusive das desgraças.

Não tenho a menor dúvida de que muitos, ou senão a maioria de nós, sairá dessa com uma perspectiva diferente da vida.

 

FSdN

 

 

https://www.youtube.com/watch?v=yNTv2Au5Bv8